blank

Carta para Maria II

Obrigada por mais essa lição.

Depois que nós construímos a nossa futura casa na areia da praia, no início desse ano, você passou a incluir a nossa casa pé na areia em suas conversas. Alguns colegas comentaram da casa comigo e muitas vezes você mencionou a casa nas nossas interações. Certo dia você perguntou ao seu pai, no caminho da escola:

 

– Pai, o que é futuro?

 

O seu pai respondeu à sua pergunta e, em seguida, você completou:

 

– Um dos meus futuros é morar em uma casa na praia.

 

Eu confesso que essa nossa “cumplicidade” me trouxe muita felicidade e esperança em relação a esse sonho antigo que eu tenho de morar em uma casa pé na areia. Todas as vezes que esse tema surgia eu sentia que o sonho já não era mais apenas meu, mas nosso.

 

Ontem nós voltamos àquela praia, onde tudo começou. Ao chegar lá, eu caminhei em direção ao mar e você ficou na areia. Nós não falamos nada e cada uma seguiu o seu movimento. Eu entrei no mar e fiquei te observando. Você estava concentrada, explorando e catando conchinhas.

 

Pouco tempo depois, você guardou os seus achados em um “esconderijo” e correu ao meu encontro. Você veio com aquele sorriso aberto, nadou em minha direção e me abraçou bem forte. A maré estava baixa. Eu me levantei com você nos meus braços e nós giramos juntas. Eu me acomodei no mar com você e apontei para a praia:

 

– Filha, imagina quando chegar o dia que a gente sair do mar diretamente para a nossa casa, em um parecido com esse!

 

Você me olhou com um olhar de descoberta e falou:

 

-Mamãe, eu tive uma ideia: E se a gente construir a nossa casa em cima da água?

 

Eu te olhei surpresa e respondi:

 

-Filha, que ideia genial. Eu não tinha parado pra pensar sobre essa possibilidade, mas nesse caso a gente estaria ainda mais próximas do mar.

 

Você emendou:

 

-Mamãe, eu tive mais uma ideia: E se a gente construir a nossa casa dentro do mar?

 

Eu respondi:

 

-Uau, nesse caso a gente estaria morando dentro do mar. Por essa aventura eu não esperava.

 

Você deu risada e continuou explorando as possibilidades da nossa possível casa submarina. Eu estava te ouvindo e, ao mesmo tempo, fazendo uma grande viagem aqui dentro de mim.

 

Nós decidimos sair do mar. Fomos resgatar as conchinhas no esconderijo e eu te ajudei a carregar o seu tesouro. No caminho eu enchi os meus olhos de lágrimas e senti, pela primeira vez, o que significava sonhar junto. Eu falei, baixinho:

 

-Obrigada por mais essa lição.

 

Você me olhou e respondeu:

 

-Mamãe, que tal da próxima vez a gente trazer um copo pra guardar as conchinhas?

 

 

Curtiu o texto? Compartilha ;)